Por que aceitamos o inaceitável na saúde?
- PBSP - Programa Brasileiro de Segurança do Paciente

- 13 de mar.
- 2 min de leitura
Atualizado: 19 de mar.

Nas últimas três décadas, o sistema de saúde produziu um volume impressionante de conhecimento sobre qualidade e segurança do cuidado.
Sabemos muito mais hoje sobre riscos assistenciais, prevenção de eventos adversos, organização de processos e governança clínica. Protocolos foram criados, programas de acreditação se expandiram e a segurança do paciente passou a fazer parte do vocabulário institucional.
Mesmo assim, a evolução real ainda é modesta.
Quase diariamente as mídias noticiam erros assistenciais, falta de acesso, negligências e mortes evitáveis. Esses episódios geram indignação momentânea, mas logo desaparecem do debate público. O sistema segue funcionando, e a sociedade segue assistindo, como se esses acontecimentos fossem parte inevitável da realidade da saúde.
Talvez o aspecto mais inquietante não seja apenas a ocorrência desses eventos, mas a forma como passamos a conviver com eles.
De certa maneira, acabamos banalizando o sofrimento do outro.
Parte dessa naturalização também está relacionada ao baixo letramento da população sobre seus próprios direitos em saúde.
Muitas pessoas ainda desconhecem o que podem exigir, que tipo de cuidado têm direito de receber ou quais padrões de segurança deveriam estar garantidos nos serviços. Sem esse conhecimento, o cidadão ocupa um lugar frágil na relação com o sistema.
Ao mesmo tempo, muitos profissionais de saúde, pressionados por estruturas organizacionais rígidas e por modelos de trabalho que frequentemente privilegiam a conformidade em detrimento da reflexão crítica, acabam assumindo uma postura cada vez mais passiva diante das falhas do próprio sistema.
O resultado é um cenário paradoxal: acumulamos conhecimento científico, mas avançamos pouco na transformação real das práticas.
Talvez a mudança comece justamente aí — quando sociedade e profissionais deixarem de tratar o sofrimento evitável como algo normal e passarem a reconhecê-lo como falha sistêmica que precisa ser compreendida, discutida e transformada.


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